Deu um
passo em direção ao interior:
-Boa tarde! – Disse Maria ao
entrar, sem que obtivesse qualquer resposta. – Está alguém em casa? – Mais uma
vez sem resposta.
A casa encontrava-se, como de costume, bem arrumada. As
almofadas cuidadosamente colocadas sobre o sofá, o taco limpo e encerado, e a
mobília limpa sem ponta de pó. A janela estava
entreaberta e a cortina movia-se graciosamente em função da brisa.
Se
súbito o ranger da porta de entrada e o consequente estrondo do seu embate
quebraram todo aquele pacífico silêncio e Maria deu um salto voltando-se para a
porta. O seu coração tinha disparado como um alarme automóvel. Segundos depois
de algumas respirações profundas como tentativas de se acalmar, Maria colocou a
mão na maçaneta e tentou abrir a porta. Apesar dos seus esforços, desistiu
assim que concluiu que a porta se encontrava trancada. “Boa… agora só quando a D. Leonor chegar é que saio daqui… Perfeito!”
resmungou, aborrecida com a situação. O que pensariam os pais do Raul ao
encontrar a amiga do filho, por sinal falecido, fechada em casa deles?
Espreitou
na cozinha: ninguém. Dirigiu-se para o escritório: ninguém. Desistindo do andar
inferior, subiu as escadas em direcção aos quartos e chamou mais uma vez, à
espera de resposta: nada. A porta do quarto do Raul estava fechada e sem pensar
duas vezes, mas ainda a medo, Maria abriu-a muito lentamente como se apreciasse
o vagaroso ranger da porta. À medida que o espaço entre a parede e a porta
aumentava, Maria esboçava um sorriso pelas quantas memórias aquele espaço lhe
trazia. Respirou fundo e entrou no quarto.
A
pouca luz que atravessava as cortinas, dava ao quarto um ar adormecido e
perfume do Raul, praticamente um mês depois da sua morte, permanecia como
sempre intenso no ar. Pousou
o saco e avançou até ao piano vertical dele e, deixando a mão deslizar sobre as
teclas, deu a volta ao banco que se encontrava à frente do piano e sentou-se.
Tantas tardes passara ali a ouvi-lo tocar... Ela nunca soubera tocar mais do
que as simples músicas que ele lhe ensinava e sorria já com os olhos molhados
enquanto os seus dedos brincavam com as teclas do jeito que ele lhe ensinara.
Um barulho repentino atrás e si fê-la
parar de tocar. Voltou-se para poder identificar de onde provinha o ruído. Algo
se mexia dentro do armário do Raul e, levantando-se, ela avançou para o abrir –
fez-se silêncio dentro do armário. Pousou devagar a mão sobre o puxador e ao
mesmo tempo que o pressionou para abrir a porta, esta abriu-se e o gato do Raul
saiu disparado e de cauda tufada pelo quarto fora. Ela fechou a porta e, ao
mesmo tempo que se sentou na cama, respirou fundo. “Fechada na casa do Raul com o gato enfurecido dele… Fantástico…”.
Outro barulho surgiu de dentro do armário – como alguma coisa a cair. Abriu a
porta e uma caixa preta de cartão grosso caiu para o chão. Pegou nela e sem
hesitar duas vezes abriu-a.
Uns conjuntos de envelopes
encontravam-se por cima de um bloco de desenho. Maria ainda hesitou em abri-los
e ao abrir o primeiro percebeu que não o devia ter feito – o envelope continha
uma carta dirigida a ela, escrita pelo Raul. Fechou-a sem a ler, voltou a pô-la
dentro da caixa e colocou a caixa dentro do armário. Fechou a porta e ficou
parada, ainda sentada na cama, a olhar para porta. Não queria invadir assim a
privacidade do Raul mas seriam aquelas cartas para quem? Aquela era para ela
mas e as outras? Não dava, se não visse naquele momento poderia não voltar a
ter a mesma oportunidade. Voltou a ir buscar a caixa e abriu-a. “Desculpa…”sussurrou como se o Raul a
ouvisse. A carta que abrira em seu nome foi posta de parte. Abriu a seguinte: “Doce Maria, …” – mais uma. Outra:
igual. E assim todas elas se somaram de parte sem restar uma única que não
fosse dirigida a ela. Ela não sabia o que pensar. Abriu o bloco de desenho: entre
paisagens, animais, apenas alguns desenhos eram dela, por sinal, muito bons.
Ela nunca soubera que ele gostava de desenhar e pelo que via, tinha mesmo
jeito.
Tornou a pôr o bloco dentro da caixa
e fixou-se nas cartas a ponderar o que faria. Não demoraria muito até pais dele
chegarem e vir-se-ia embora sem as ler se as deixasse ali – juntou-as e
levantou-se para as guardar no saco dela, junto ao piano. Voltou para junto da
cama, fechou a caixa e guardou-a de novo dentro do armário. Ao fechar a porta
foi capaz de ouvir o barulho da porta de entrada abrir no andar de baixo – a
mãe ou o pai do Raul já deviam ter chegado a casa. Ela dirigiu-se para a porta
mas descoordenou-se, tropeçou no tapete e nos próprios pés e caiu, batendo com
a cabeça na esquina do banco em frente ao piano, desmaiando de imediato no chão
do quarto do Raul.
seguinte
(disponível a 08-09-2013)

muito obrigada! eu também te sigo :)
ResponderEliminartenho a dizer-te que és um amor, que devo-te a ti muitos dos meus retornos, muitos dos meus textos! obrigada por isso e por te manteres aqui, sempre à espera de um regresso que parece nunca chegar, mas chega. um beijinho princesa
ResponderEliminarquero as cartas*
ResponderEliminarr: mas tens de tentar! só assim é que sabes se consegues ou não! :)
ResponderEliminarowww, tão fofinha! :) também foi mais fácil conversar contigo e "criar laços" porque temos o mesmo sonho e apoiamo-nos e damos conselhos uma à outra. :)
r: depois te tanto tempo a batalhar para isto, finalmente consegui! yeeeah! :D obrigada <3 também quero um dia ouvir-te. e um dia cantar contigo! :D
ResponderEliminarr: para os outros acreditarem plenamente em ti, tens tu de acreditar! não há nada melhor para aprender do que a experiência. e não te esqueças "só reconheces a vitória se souberes o que é a derrota". nem sempre tudo vai correr bem mas podemos fazer para que isso aconteça! força, força, força, força! :)
ResponderEliminarr: eles pensam nisso porque já têm essa ideia entranhada, já pensam que és o coro. o que tens de fazer é mostrar-lhes que estão errados! tu consegues, tens tudo para o conseguir! e não querem conhecer? não te interesses! o resto do mundo está sempre disposto a conhecer novos cantores, atores, pintores, enfim, artistas. o que são 10 ou 20 pessoas ao lado do resto do mundo? esforça-te e mesmo que eles não acreditem em ti agora, quando te virem em cima de um grande palco no mundo, eles vão acreditar ;)
ResponderEliminarr: a chorar, tonta?
ResponderEliminarGostei, está cada vez melhor.
ResponderEliminarPs. Devias ajustar as margens e limites do blog, o texto está muito encolhido, e ficaria melhor apresentado se tivesse mais espaço
r: que feia, oh? :c
ResponderEliminarr: não, totó! tu disseste que eras feia :( eu acho que os teus olhos um dia vão é chorar (de horror ) ao ver-me x)
ResponderEliminar